Crônicas de Priscilla Porto

19/02/2009 09:22
O OUTRO LADO

Joana viajava de ônibus e espantou-se ao ver um céu tão estrelado. Isto porque Joana fazia faculdade, era casada, tinha dois filhos e trabalhava bastante, fora e dentro de casa.

À noite, quando o céu se estrelava, ela estava sempre cansada demais para abrir as janelas e apreciar as estrelas como uma filósofa, uma poetisa ou uma de admiradora de abstrações. Isto porque, Joana estava imersa no modo de vida contemporâneo, onde o ter e o fazer regem a vida e até os sentimentos das pessoas. E tudo que ameaça a "verdade" absoluta do time is money é veemente relegado. Ainda mais em tempos de IPVA, IPTU, material escolar, juros altos e crise econômica.

No entanto, Joana iria passar a noite no ônibus, depois de acompanhar o enterro da avó materna. E, após ligar para casa e, mesmo de longe, tentar auxiliar o marido e os dois filhos em casa, desligou o celular, virou-se para o lado e se deparou com aquele céu imensamente estrelado. Um espetáculo que muitas vezes não vemos, também, por estar ofuscado pelas luzes da cidade. As mesmas luzes que nos acompanham em tantos afazeres, problemas, compromissos e obrigações e, na realidade, pouco nos ilumina. As luzes que se apagaram para a sua avó, que agora não poderia mais nem ver o lado da cidade – de céu opaco - nem o lado da estrada com seu intrigante e belo manto estrelado.

Só então, Joana refletiu que, não só quem morre perde a visão dos dois lados dos fatos. Muitas vezes, possibilidades reais e engrandecedoras estão bem perto de nós, e ainda insistimos em olhar e seguir apenas por um lado.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/02/09.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)