Crônicas de Priscilla Porto

14/12/2008 12:50
NOSSA CAIXINHA DE PENDÊNCIAS

"Vivemos esperando dias melhores", diz a canção.
No entanto, esta espera pode se distanciar da nobre "esperança" e se tornar combustível para a constatação de uma realidade: ontem foi concreto, mas o que aconteceu é irreparável. Já, o dia de amanhã, é moeda de troca ambiciosa e platônica. O pacote "no futuro" então...

E, enquanto isso, enquanto vivemos dentro de uma linda panela, em "banho-maria", nosso tempo vai assando. E não recebemos aviso prévio sobre quando a água acabará.

Medimos o tempo, como se ele fosse realmente nosso. No entanto, ninguém por aqui vive um tempo à parte e disponível para que a sua vivência seja tão facilmente ponderada. Somos pretensiosos demais.
E, assim, fica para trás a visita ao amigo que estava doente, e já até melhorou. Ficam para trás os livros virgens e empoeirados na estante. Ficam pra trás dezenas de terços, e mais centenas de ave-marias e pais-nosso que pagariam nossas incontáveis promessas. Ficam pra trás inúmeros abraços, "gosto muito de você", e "você é tão importante pra mim" que poderiam ter sido dados e ditos e terem se despedido ilustremente da nossa lista enorme de "pendências" pessoais.

Como se o lado pessoal pudesse sempre esperar.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 12/12/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






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