Crônicas de Priscilla Porto

22/08/2008 09:22
E SE FOR O ÚLTIMO DIA?


Provavelmente, estou exatamente na metade dos dias que comporão meu ciclo de vida. Não por pessimismo, mas não sei se vou além dos 60...

Por isso, ao vislumbrar a data de hoje, 20 de agosto de 2008 ( data em que escrevo esta crônica ), comecei a fazer um balancete. Já fiz tanta coisa. Mas, há tanto, ainda, por fazer.

E se eu não estiver na metade, mas, no penúltimo dia de minha vida? E se eu morrer amanhã?

Bom, provavelmente, se isto acontecer, não sei mais quem vai cobrir nosso cachorro que, devido ao tamanho, já não dorme mais em sua ex-casinha (coitado! é quase um sem-teto).

Deixarei um guarda-roupa que dará muito trabalho para ser arrumado. Sem contar, no tanto de papéis - quase inúteis - que ainda não tive coragem de jogar fora.

E as contas que ainda não acabei de pagar? Pagará o prejuízo, quem um dia me deu crédito? Aliás, o que acontecerá com minhas três contas bancárias?

Provavelmente, estas questões darão um certo trabalho. Afinal, poxa vida! Ninguém passa por aqui, em vão. Nem que seja para atrapalhar um pouquinho a vida dos outros...

Mas, e os 139 livros que gostaria muito, mas, ainda não li? E os filmes que estão em uma listinha meio amassada, que não vi? Quem os verá por mim?

Poxa, ninguém poderá vê-los por mim. Ninguém poderá comer por mim. Ninguém poderá olhar pela janela do quarto com meus olhos. Os meus verdadeiros olhos.

Nossa... posso estar a um dia de minha despedida, mesmo tendo tanto ainda por vir.

E, ainda assim, insisto em ficar parada, quase como uma ameba, zapeando programas estúpidos de televisão.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 22/08/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






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