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18/07/2008 11:32
Antes fosse metáfora
Joana era tia-avó de um menino de três anos, o qual era o seu xodó.
O garoto, morava no Rio e a tia-avó morava em um "cantão" no estado do Pará. Lugarejo pobre e carente do país.
Luz para todos não tinha. Nem para Joana. Fome zero era rara no lugar. Bolsa nem as de pano, nem outra qualquer para a Família. Mas, afeto tinha de sobra. João era o xodó de Joana.
Em tal "cantão", não havia nem luz, nem internet, nem TV, nem rádio. A única forma de receber notícias distantes era por carta. E, deste modo, Joana ficou sabendo do nascimento de João, do seu batizado, do seu primeiro passo, das primeiras palavras. Também vieram por cartas, três adoradas fotos do pequeno menino.
Em uma tarde de certa seca quinta-feira, Joana recebeu outra carta. Atrasada por greve dos Correios. Nela, leu notícia de quase cair dura. Notícia impossível de acreditar: o sobrinho-neto havia morrido. Com apenas três anos.
E não tinha morrido de pneumonia ou outra doença qualquer. Tinha morrido com bala na cabeça. Joana ficou perdida. A bala não foi perdida. Veio das armas de policiais militares da cidade maravilhosa. A cidade, a sociedade, a violência que lhe mandavam notícia de óbito de seu xodozinho.
Notícia atrasada, mas nem por isso menos triste, de um sociedade sem conserto.
Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 18/07/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto
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