Crônicas de Priscilla Porto

04/07/2008 14:40
AS MENINAS NÃO DEVERIAM SE CASAR


Luiza nasceu em família de quatro homens mais velhos e ela, de mulher. Em casa, o sistema ou a "educação" era rígida.

Enquanto os irmãos podiam tudo, a ela restava a casa. As vasilhas, as vassouras, as roupas sujas – para serem bem lavadas.

Talvez por isso, ou talvez por ler muito romance açucarado e ver novela das seis e das sete (Das oito, não lhe era permitido), sonhava com o fictício Príncipe Encantado. (O qual não sei de que lenda surgiu. Se, hoje, é espécime rara, imagina se antes de Cristo existiria homem com tal honraria?)

Quando cresceu um pouco, Luiza conheceu João, que gostaria muito de namorar com ela. O pai proibiu veementemente. A mãe, apenas sentia pena da filha. Talvez sentindo pena de si mesma.

Não agüentando mais as rédeas do pai, Luiza ficou com João. Casaram-se. Fugiu de uma prisão para cair em outra. Sentiu na pele a desilusão de se ter os sonhos ceifados. A crença de que o outro poderia lhe completar. Poderia ser a válvula de escape. Não conseguiu resolver problemas em sua própria família - advindos de uma sociedade machista - e passou a conviver com "novos" problemas. João acreditava mandar em Luiza e batia nela.

Desde então, Luiza passou a ser uma mulher muito triste. Pois, o outro a fazia acreditar que não dependia somente dela, a solução para a perda de seus sonhos de menina.

(Continua...)

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 04/07/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






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