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23/06/2008 22:52
VIDA ANDARILHA
Coisas dadas como certas são chatas, quase insuportáveis.
O crescer como a menina dos olhos da família. O ficar, namorar, noivar e casar.
O estudar, formar e trabalhar na melhor empresa que um recém-formado poderia almejar.
O juntar dinheiro e comprar uma bicicleta, uma moto, um carro, uma casa com piscina.
Tudo balela!
Se tudo fosse certinho, ninguém estaria por aqui.
O mundo ou a Terra, pelo menos, é a casa dos erros infinitos. E, nas entrelinhas, somos, não raramente, castigados.
Orelha de burro. Joelho no milho. Perdas. Perdas infinitas...
Só há começo de caminho. O resto é tudo ilusório. Basta, para atestar tal fato, a ronda constante de uma senhora ardilosa que pode nos obrigar a uma passagem não muito agradável a qualquer momento...
E, ainda assim, a Igreja prega a virgindade.
A escola prega a obediência.
A sociedade prega a civilidade.
As pessoas pregam a sanidade.
Sanidade?
Algumas semanas atrás, uma andarilha próxima à rodoviária de BH, talvez mais suja do que a calçada em que pisava, conversava efusivamente. Com os que passavam em seus carros blindados? Não. Conversava com seu amigo imaginário, o qual pela raiva que lhe era imposta, parecia ter aprontado muito. Imaginário?
Quem sabe não era um filho que ela havia, há muito, perdido?
Pelo menos, era alguém que ainda lhe dava ouvidos.
Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/06/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto
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