Crônicas de Priscilla Porto

22/03/2008 10:24
OS PÉS DE JOÃO

Viajava no banco da frente e ele, no de trás. Toda hora pedia que eu repetisse a música "Rodo Cotidiano", na versão em que o Falcão canta acompanhado da Maria Rita. Às vezes, pedia também a música "Papo Reto" do Charlie Brown Jr., apesar de ter apenas oito inocentes anos.

É engraçado como, desde pequeno, ele decora as letras completas das músicas, de qualquer estilo e, do nada, começa a cantarolar. Como foi inusitado, de repente, ver seu pé direito se esgueirando e ouvir a voz doce lá de trás pedindo "faz tatuagem"?

Isto poque, na falta de papel, João viu que anotei algo na mão, à caneta, o que fez-lhe brotar a idéia. Aceitei. Desenhei um elefante. Ele pediu: "Faz outra? Tem espaço." Fiz uma flor. Pediu de novo. E de novo. E de novo. E ofereceu o outro pé. Depois, a mão direita. Depois a esquerda.

Tentei negociar de todas as maneiras a parada da brincadeira de tia cansada do sobrinho incansável. "A tinta está acabando", "Não sei mais o que desenhar," "Não tem mais espaço". Tudo em vão.

Contra aquilo não havia argumento: a atenção dada a uma criança. Com certeza, João Vitor, meu sobrinho mais novo não estava feliz apenas com tatuagens de caneta, que a primeira água apagaria. Sua alegria era de sentir o contato, a descontração e o carinho desenhado em curvas e retas tortas.

Com um tempo tão escasso, os pés de João Vitor, chegando de mansinho no banco da frente, ficarão, com certeza, por muito tempo, na dele e na minha memória.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/03/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






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