Crônicas de Priscilla Porto

28/05/2009 15:07
Ouro Preto e Belo Horizonte realizam, neste domingo, 2º Encontro de Libras

Priscilla Porto

Acontece, neste domingo, 31 de maio, o 2º Encontro de Libras de Ouro Preto, a partir das 10h no adro da Igreja São Francisco de Assis. O evento consiste em um encontro entre surdos e ouvintes de Belo Horizonte e Ouro Preto, estudantes da Libras - Língua Brasileira de Sinais e tem como objetivo a sensibilização da sociedade em relação à comunidade Surda.

Durante o 1º Encontro de Libras de Ouro Preto, realizado em setembro do ano passado, foram oferecidas oficinas gratuitas sobre a Língua Brasileira de Sinais para toda a comunidade. Neste 2º Encontro, a proposta é apresentar aos participantes pontos históricos de Ouro Preto, em Português e em Libras, para que o acesso à cultura e à informação seja ampliado.

Em Ouro Preto, o curso de Libras é oferecido pelo Instituto Candônguero. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail libras.sinaisquedespertam@gmail.com ou pelos telefones (31) 3551-1228 e 8604-3916.

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13/03/2009 11:16
LINHAS TORTAS

“Não podemos ter tudo”, afirmam os sábios. Por isso, devemos estar preparados para quando a vida nos trouxer, como presente de grego, uma perda, ou mesmo, uma grande escolha.

Não a escolha entre a azeitona e o picles ou entre a carne gorda e a saúde. Não a escolha entre a segurança e o atalho, ou entre o sedentarismo e a caminhada. Não a escolha entre o DVD e a ida ao cinema ou entre a arte e a futilidade. Não a escolha entre a o jornal e a novela ou entre a vida estressante na cidade e as limitações do campo.

Não podemos ter tudo e nem poderíamos cogitar tal possibilidade. Isto porque somos pequenos diante de tantos, não somos tão sábios diante de infinito obscurantismo, e não somos tão perfeitos para sermos tão venerados.

Por isso, é preciso saber perder, é preciso saber escolher, é preciso perceber que a vida possui entrelinhas que podem, ou não, se encontrar com certas linhas tortas...

Viver não é fácil. Perder é difícil. Escolher é difícil. Mas, acovardar-se jamais será a solução.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 13/03/09.
priscillaporto@gmail.com
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06/03/2009 10:01
É PARA POUCOS

Mesmo ainda sem religião definida, acredito que o importante é se espiritualizar e tentar se aprimorar a cada despertar - de dias ou de consciência. Acredito que há uma força maior sim, que nos direciona e nos conduz nessa caminhada – pelo menos de corpo - finita.

O que não dá é para aceitar o desrespeito. Por isso, acho tão difícil conviver com fundamentalistas e religiosos que se aprofundam em suas doutrinas, renegam piamente qualquer outra “verdade”, acreditam serem os donos da “verdade” e destilam críticas, a todo tempo, sobre os que não são de sua religião.

É preciso respeito! Já deixei de ir a encontros e cultos por ouvir barbaridades sobre outras religiões, como se alguém, por aqui, fosse perfeito. E se alguém, por acaso, chegasse perto da perfeição, com certeza não seriam os pregadores de alienações e preconceitos com a opinião e a crença do outro, do “irmão”; não seriam aqueles que propagam esdrúxulos julgamentos contra o ser que também está em busca de uma verdade ou de alimento para sua alma contra inúmeras fraquezas e desafios que nos saúdam a cada nascer do sol, nem sempre com um “bom-dia”!

É preciso respeito! Se não somos da mesma religião e não seguimos as mesmas idéias, ideais ou temos a mesma crença, não quer dizer que somos piores ou melhores que o outro.

Fé cega pode ser para muitos. Mas, sabedoria é para poucos.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 06/03/09.
priscillaporto@gmail.com
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19/02/2009 09:22
O OUTRO LADO

Joana viajava de ônibus e espantou-se ao ver um céu tão estrelado. Isto porque Joana fazia faculdade, era casada, tinha dois filhos e trabalhava bastante, fora e dentro de casa.

À noite, quando o céu se estrelava, ela estava sempre cansada demais para abrir as janelas e apreciar as estrelas como uma filósofa, uma poetisa ou uma de admiradora de abstrações. Isto porque, Joana estava imersa no modo de vida contemporâneo, onde o ter e o fazer regem a vida e até os sentimentos das pessoas. E tudo que ameaça a "verdade" absoluta do time is money é veemente relegado. Ainda mais em tempos de IPVA, IPTU, material escolar, juros altos e crise econômica.

No entanto, Joana iria passar a noite no ônibus, depois de acompanhar o enterro da avó materna. E, após ligar para casa e, mesmo de longe, tentar auxiliar o marido e os dois filhos em casa, desligou o celular, virou-se para o lado e se deparou com aquele céu imensamente estrelado. Um espetáculo que muitas vezes não vemos, também, por estar ofuscado pelas luzes da cidade. As mesmas luzes que nos acompanham em tantos afazeres, problemas, compromissos e obrigações e, na realidade, pouco nos ilumina. As luzes que se apagaram para a sua avó, que agora não poderia mais nem ver o lado da cidade – de céu opaco - nem o lado da estrada com seu intrigante e belo manto estrelado.

Só então, Joana refletiu que, não só quem morre perde a visão dos dois lados dos fatos. Muitas vezes, possibilidades reais e engrandecedoras estão bem perto de nós, e ainda insistimos em olhar e seguir apenas por um lado.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/02/09.
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13/02/2009 11:27
MENINA ALICE

Estou no Pelourinho de Salvador (BA) . Amo esse lugar. Talvez pela semelhança com nossa Ouro Preto, mas apimentada com o tempero baiano.

Ó pai, ó! – exclama uma baiana que vende acarajé e cocadas na esquina, depois de alguma reivindicação de um turista europeu.

Na Fundação Casa de Jorge Amado, conheço um pouco mais do escritor baiano que tanto li na adolescência. Um de meus ídolos. Antes, no Forte São Marcelo, conheci também mais da história da nossa colonização e da invasão dos holandeses na Baía de Todos os Santos. Um forte ricamente histórico, imponente e com uma vista maravilhosa.

Já no Largo do Pelourinho, tão visto pela TV, revistas e jornais, sento nas escadas, em frente à Fundação, ao lado de Alice. Sua mãe vende água. Estou chupando um picolé e ela não me pede, mas fica cantando, em "baianês": "Um picolé isso, um picolé aquilo...". Ofereço-lhe a parte que ainda resta. Mas ela ainda resiste. Apesar de ir pra rua com a mãe, que vende também refrigerante – a menina Alice é muito educada. Acaba aceitando, depois de eu insistir, sem antes deixar de perguntar: "Tu não quê mesmo?" Depois, começa a chupar o picolé e a me contar que um moço caiu de moto e se machucou todo, em seu bairro, e chamaram o Samu e tal... Espanto-me com a esperteza de Alice e sua mãe me conta que ela tem apenas três anos. A outra turista olha pra ela, como eu. E antes que a sua mãe ou eu digamos alguma coisa, Alice, a menina baiana, se adianta: "Eu sei tudo!"

Penso que a espontaneidade daquela expressão seria uma possível resposta à famosa pergunta: "o quê que a baiana tem?"

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 13/02/09.
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06/02/2009 10:53
COMO NOSSOS PAIS?

Deixando de lado a rebeldia tradicional de filhos contra os pais, gostaria de escrever sobre outro aspecto desta desigual relação.

Sonhos de cada pessoa são diferentes e algumas delas sonham em encontrar o "alguém especial", casar e ter filhos – formar uma família. Sonhos que, às vezes podem parecer simples, mas que exigem um grande esforço. Isto porque, muitas vezes, filhos não sonham junto com os pais.

Não é difícil constatar a dificuldade que temos de perceber que nossos pais não foram sempre o "senhor José" ou a "senhora Maria" que só conhecemos adultos, sérios e preocupados em estruturar bem a família – manter o sonho desejado real, em uma difícil e dura realidade.

Não é difícil constatar a dificuldade que temos de perceber que aqueles adultos centrados e responsáveis, já foram como nós: cheios de dúvidas, ansiedades e sonhos. Foram crianças já e, também, já pularam o muro da escola para ir andar de bicicleta. Foram adolescentes já e, também, já quiseram dormir na casa da melhor amiga para poder encontrar escondido com o primeiro namorado. Já foram "pré-adultos" e, com medo arrebatador da realidade, também quiseram jogar tudo pro ar.

Mas, não jogaram. Arrumaram emprego, casaram, formaram uma família. E passaram a ser pessoas preocupadas com a roupa, a escola e o lazer dos filhos, enquanto muitos deles ignoram os sonhos dos pais, sendo fúteis, tolos e absurdamente ingratos.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 06/02/09.
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30/01/2009 10:49
ODE À PREGUIÇA


Controle remoto. Control C/Control V. Centrífuga Juicer. Microônibus em Ouro Preto. Comandos Fwd e Cco dos e-mails. Microondas. Corretor ortográfico... Esses e tantos outros itens que atestam o estado letárgico para o qual está caminhando a humanidade. Ou seria engatinhando?

Mas falta, ainda, inventarem o rolo de papel higiênico que anda sozinho pro banheiro, assim que o último centímetro do rolo anterior acaba. Como falta, também, nascer o cachorro adestrado que leva comida pra gente até o sofá e, depois, volta com a vasilha suja para a cozinha. E ainda lava!

Vidro elétrico do carro. O "cê" do "Cê viu?" Corretivo nas palavras, frases e até em parágrafos inteiros. Delivery de sushi. Portão eletrônico. A sopa e o café instantâneos... Esses e tantos outros artifícios que apontam sintomas da preguicites agudan que assola a sociedade ocidental contemporânea.

Mas falta, ainda, criarem janelas que se fecham sozinhas ao primeiro sinal do pôr-do-sol. E, também, o gato de estimação treinado para ir correndo ao terreiro buscar as roupas que estão secando no varal, após a primeira gota de chuva.

O caixa eletrônico e seu primo nada distante - o cartão de crédito. O Google e a Wikipedia. O câmbio automático e a direção hidráulica. A compra de supermercado pela internet... Essas e tantas outras comodidades elaboradas pelas mentes criativas de uma espécie extremamente preguiçosa.

Mas falta ainda, criar a roupa que sai do nosso corpo sozinha e vai correndo em direção à máquina de lavar. Bem como o carro que estaciona de ré, em uma ladeira de Ouro Preto, entre dois carros, sozinho. Ou a ode maior à preguiça humana: uma banana geneticamente modificada para se descascar sozinha.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 30/01/09.
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23/01/2009 11:51
Vida de cachorro?

Já estamos quase no segundo mês do ano, mas ainda há tempo para planejar. Aliás, ainda há tempo de olhar para os últimos 12 meses e analisar o que valeu a pena ou não. Tentar traçar metas com fundamentos e sem riscos. Bobagem! Quantos planos fazemos e esquecemos nos papéis velhos da gaveta cheia e desarrumada do armário?

Às vezes, o que me espanta é o leque de novas oportunidades que para nós se configura, a cada amanhecer, após uma noite mal dormida e cheia de problemas. Ainda que tudo pareça perdido, o travesseiro consegue nos confortar um pouco e aliviar dificuldades que insistem em nos fazer constatar o significado exato de ser gente, ser adulto e ser alguém no emaranhado de pessoas, idéias, ideais, necessidades e planos que arquitetam nossa espécie.

Enquanto isso, o cachorro aqui de casa, espreguiça, deita e lança-me olhar lânguido de bicho que - exceto em nossos momentos máximos de prazer - tanto invejamos. Parece que, as maiores dificuldades que tem são conseguir pedaços de nossas comidas – uma vez que a sua parece não mais lhe satisfazer - e curtir alguns momentos de prazer em cima de nossas camas, antes de ser descoberto e sair correndo.

Mas, voltando a nossa realidade e tentando fazer uma análise dos "acertos" e "erros" praticados no ano do que se foi, gostaria de concluir alguma coisa. No entanto, quem conclui será, apenas, Deus. Enquanto vivemos estaremos, repetidamente, tentando. Tentando ser feliz, tentando nos satisfazer, tentando amar, tentando nos encaixar em padrões pré-estabelecidos.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 23/01/09.
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16/01/2009 10:10
EVOLUÇÃO?

O ano de 2009 parece que será mesmo um ano "novo". Vem precedido por uma das maiores crises financeiras de todos os tempos e abriu as cortinas com um genocídio no lado oriental do mundo.

O que será que teremos de retrospectiva ao final do ano? Obama conseguirá mudar a imagem dos Estados Unidos? Os juros no Brasil diminuirão? Ou a "marolinha" atingirá mais setores da economia brasileira, além das próximas aqui de nós, mineradoras? Será que a demissão de quase 800 empregados temporários da General Motors, em São José dos Campos, acena para a resposta?

A Inglaterra já comemora os 200 anos de nascimento de Charles Darwin. Será que "A Origem das Espécies" e a teoria de seleção natural conseguiriam explicar o que vem por aí?

De Darwin veio a teoria da evolução pela seleção natural. Já na sociedade contemporânea, o que se configura é a "evolução" por outro tipo de seleção – da individualidade, da desumanidade e da incompreensão.

Darwin nos deu uma possível explicação para nossa origem. Quem nos dará explicações para o nosso fim? E há como explicar os passos que vem dando a humanidade?


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 16/01/09.
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10/01/2009 11:00
CESSAR-FOGO

Sentada em uma carteira da Escola Dom Velloso, em uma manhã da década de 90, tomei conhecimento de estratégias, "causas" e conseqüências de uma guerra. A 1ª Guerra Mundial. E lembro que uma palavra no meio daquilo tudo, que parecia tão distante - por tempo e espaço- não saiu da minha cabeça: a trincheira.

Depois, sempre que via filmes e documentários sobre guerras, lembrava-me da carteira da escola, da manhã nublada e do professor tentando explicar aos alunos, algo tão improvável de se explicar. Enquanto isso, ficava imaginando a trincheira, a iminência do medo e a proximidade do inimigo. No entanto, o medo era compartilhado: do seu lado ou do outro a guerra era concreta e o fim era real.

Hoje, a guerra é na Faixa de Gaza. E, agora, a guerra principal não ocorre mais em trincheiras. Atiram foguetes e mísseis em alvos "imaginários". O inimigo não está tão próximo e a piedade foi a primeira a bater em retirada. Fotos nos jornais e na Internet mostram pessoas se defendendo, deitadas no chão e com as mãos na cabeça. Pessoas protegendo seus filhos, a céu aberto, como se a mão na cabeça ou o enlace na pessoa que você tanto ama, fossem capazes de protegê-las da impiedade humana.

Israel, Palestina, Hamas, Hezbollah, religião, xiitas, terra, missões, autonomia, reuniões. Tudo que deveria girar em torno das vidas que estão indo embora, girando em torno da irracionalidade.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 09/01/09.
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19/12/2008 12:22
FELIZ NATAL?


Lá vem a chuva dar o ar da desgraça em Minas Gerais. Não bastasse o que já aprontou em Santa Catarina!

Entretanto, o impressionante é que ela não vem sozinha. Vem arrastando consigo a sombra da incompetência do poder público que, a cada ano, sabe do que ela capaz, mas a subestima. Assim como subestima o povo.

Mais de 300 dias... Mais de noventa semanas... Não somos adivinhos para saber o que acontecerá no dia seguinte, mas muita coisa pode ser evitada. As pessoas podem ser mais competentes sim! E não trabalharem, apenas, em função de cédulas computadas em uma conta bancária.

As pessoas podem ser mais sérias sim! E deixarem a vida alheia afastada de sua malícia, bem como a vontade desenfreada de "cuidar" da vida dos outros, enquanto não percebem como a própria vida é que precisa de mais cuidado.

As pessoas podem ser mais solidárias. E, mesmo que o emprego seja bom, os filhos estudem nas melhores escolas e a casa jamais será atingida, elas podem se lembrar que existe gente muito diferente da porta da sua casa para fora.

Deixe de lado o "Feliz Natal", no mesmo canto que o "Próspero Ano Novo", se dentro de você não estiver projetada nenhuma mudança para melhoria de sua consciência.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 19/12/08.
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14/12/2008 12:50
NOSSA CAIXINHA DE PENDÊNCIAS

"Vivemos esperando dias melhores", diz a canção.
No entanto, esta espera pode se distanciar da nobre "esperança" e se tornar combustível para a constatação de uma realidade: ontem foi concreto, mas o que aconteceu é irreparável. Já, o dia de amanhã, é moeda de troca ambiciosa e platônica. O pacote "no futuro" então...

E, enquanto isso, enquanto vivemos dentro de uma linda panela, em "banho-maria", nosso tempo vai assando. E não recebemos aviso prévio sobre quando a água acabará.

Medimos o tempo, como se ele fosse realmente nosso. No entanto, ninguém por aqui vive um tempo à parte e disponível para que a sua vivência seja tão facilmente ponderada. Somos pretensiosos demais.
E, assim, fica para trás a visita ao amigo que estava doente, e já até melhorou. Ficam para trás os livros virgens e empoeirados na estante. Ficam pra trás dezenas de terços, e mais centenas de ave-marias e pais-nosso que pagariam nossas incontáveis promessas. Ficam pra trás inúmeros abraços, "gosto muito de você", e "você é tão importante pra mim" que poderiam ter sido dados e ditos e terem se despedido ilustremente da nossa lista enorme de "pendências" pessoais.

Como se o lado pessoal pudesse sempre esperar.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 12/12/08.
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08/12/2008 17:09
INVERSÃO DE VALORES

Um dos assuntos que têm chamado a atenção de alguma parte da mídia, recentemente, diz respeito à traição que levou ao fim do casamento de Suzana Vieira, por parte de seu ex-marido, com uma mulher mais jovem e mais bonita.

Trair parece fácil demais aos olhos, pensamentos ou coração de quem trai. Prevalece aí, o prazer ou a insanidade a qualquer custo e, o que deveria ser valorizado - o sentimento do outro – que se dane.

É muito bonito e ilusório acreditar em quem está com a gente no momento; acreditar naquele que já te conhece e que já te fez confiar totalmente. Naquele que olha em seus olhos e diz que te ama, mas, ainda assim o trai. É, inclusive, mais cômodo fingir que não acontece com a gente, aquilo que é notícia cotidiana e banal em conversas pelas costas e páginas de jornais.

Só é estranho como o sentimento do outro deixa de ser sentido, de uma hora para outra, mesmo que antes tenha sido compartilhado. Ah, mas que se dane! "Ele não quis sair comigo hoje" ou "Ela está muito gorda e não faz nada pra emagrecer".

No entanto, não acredito que a causa seja a beleza superior, a idade inferior ou a posição social do pivô da traição. O "problema" não está no que há "a mais" no outro, ou no que há "de menos" no parceiro. O "problema" está, sim, no que falta em quem trai – caráter.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 05/12/08.
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30/11/2008 17:35
E LÁ SE VAI MAIS UM DIA...

Tenho perdido bom tempo da minha vida, a qual é contabilizada em unidades aparentemente iguais mas, que na verdade são singulares, em seguir um roteiro de inúmeros "tenho que".

Não posso virar a madrugada escrevendo, assistindo TV ou ouvindo músicas antigas de gente boa antiga porque, na manhã seguinte, "tenho que" acordar cedo.

Não posso almoçar devagar, ouvir de verdade o que minha mãe tá contando que aconteceu na escola dela e, ainda por cima, interagir, porque "tenho que" almoçar correndo pra ir trabalhar.

Não posso passar um dia da semana "viajando na maionese", andando por aí, pelas ruas, reparando o que acontece de verdade na vida, tanto nas outras, quando na minha, porque "tenho que" trabalhar.

Não posso atender a todos os telefonemas de meus amigos, tampouco responder todos os scraps e e-mails, porque "tenho que" estudar pra prova de amanhã. Isso porque, o resto do ano todo estudei pouco e, agora, "tenho que" tirar 26 em 30.

Não posso parar de trabalhar e largar tudo, em plena três horas da tarde, pegar minha bolsa e ir embora, porque "tenho que" ganhar dinheiro pra comida, pro gás, pra luz, pro médico e, inclusive, pra acabar de pagar a bolsa.

O mais falado, o mais escrito, o mais ouvido. Nem preciso te apresentar, é o famoso "tenho que". Aquele que te faz perder, um a um, de todos os dias da sua vida. O pior é se esses dias forem poucos.


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 28/11/08.
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21/11/2008 22:17
Vai com Deus, Rafael!

Rafael, te conheci pessoalmente em fevereiro. Mas, de vista, já te conhecia há tanto...

Não sabia, antes, que você já era jornalista. Não sabemos tanta coisa...

Você me ensinou o que faço agora e, por muitas vezes, fiquei sem graça de te ligar pra tirar alguma dúvida. Ai, eu devia ter ligado! Eu devia ter falado mais contigo. E eu deveria, acima de tudo, ter ligado pra te dizer que, lendo as matérias que você escrevia, antes de mim, eu pensava comigo: "Nossa! O Rafael escreve tão bem!"

Lembro do dia em que, na Semana Nacional dos Museus deste ano, você me contou um tanto de história e disse que estava acompanhando o que eu estava escrevendo. E, fiquei com uma vergonha, menino! Sabe por quê? Porque você, Rafael, escrevia tão bem...

No sábado passado - poxa! - no caixa do supermercado, só consegui mexer contigo e ver seu sorriso terno. Poxa! Pela última vez...

Nossa, se soubesse! Se soubesse... Se soubéssemos quando será a última vez...

Teria ali, à beira do caixa mesmo te dito: "Nossa, Rafael! Você escreve tão bem!"

Mas, não dizemos tanta coisa...

E, agora, não posso mais te ligar.

Mas, se ainda puder me ouvir, Rafael, só queria que você fizesse uma pergunta aí pro nosso Editor-Chefe:

"Por que gente boa vai embora tão cedo?"

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 21/11/08.
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15/11/2008 13:50
A ANTÍTESE DO HUMANO POR DEUS SONHADO

José da Silva Manuel, também conhecido como " Zé Mané", tem cerca de 40 anos e um filho quase não reconhecido. É casado, tem com a esposa duas filhas, e mais um guri com a amante.

Zé Mané não está nem aí para a água que lava o carro aos sábados, abundantemente desperdiçada. Tampouco, se importa com a luz acesa que ilumina, por horas, sua sala nobremente vazia.

Zé Mané dirige depois da cervejinha e, talvez seja por isso – coitadinho! – que, sem querer, joga a latinha na estrada.

Zé Mané detesta ler, mas adora programas de baixaria que passam na televisão. Quanto aos jornais, se orgulha de comprar os baratinhos para usar de forro pro cocô de seu gato.

Zé Mané odeia o advogado que lhe cobra a pensão do filho quase não reconhecido. E, fora a amante oficial, ainda "pula a cerca" sem camisinha, com outras mulheres fora de suas duas casas.

Zé Mané estufa o peito para dizer que "odeia políticos e política" e se abstém, abnegadamente, de – Justo no domingo, ora! - votar. Além disso, rasga – prazerosamente, as cartas de convocação para eleição do presidente da Associação de seu Bairro.

José da Silva Manuel não está preocupado com o que beberá seu neto, que ar ele irá respirar ou quanto ele poderá comer ao dia. José Manuel não se preocupa com o futuro, porque Zé Manés não possuem a menor perspectiva.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 14/11/08.
priscillaporto@gmail.com
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07/11/2008 10:31
YES, WE CAN?


Os Estados Unidos da América elegem Barack Obama seu presidente! O mundo e os meios de comunicação exaltam a vitória!

Entretanto, junto com as cédulas que entraram nas arcaicas urnas estadunidenses, foi deflagrada uma realidade: o mundo é preconceituoso e preconceito velado é utopia!

Todos repetem: "foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos". Mas, é indignante o fato de Obama não ser vangloriado como progressista ou como político com propostas diferenciadas em um país que ficou, por oito anos, sob domínio de uma política bélica e intolerante. Vide o episódio de invasão do Iraque, há cinco anos, quando vários países e cidadãos norte-americanos eram contrários à Guerra, mas Bush virou as costas para tantos e para a primeira dama da racionalidade: a democracia.

Os Estados Unidos não elegeram seu primeiro presidente negro! Ainda que a conjunção histórica seja de que Obama represente a ascensão dos negros e dos pobres em um país de maioria branca, esta constatação elege mais que uma vitória. Por trás da comemoração, fica a lastimante e xucra descoberta de que ainda importa - e muito - para a humanidade, a cor que lhe estampa.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 07/11/08.
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31/10/2008 11:10
VOCÊ QUER SER O BOM OU O MAU?

Os Correios já estão de portas abertas para as pessoas que desejam ser Papai Noel de uma das crianças carentes que enviam cartinhas pedindo um presente de Natal. Algumas cartas pedem coisas simples e, basta que as pessoas entreguem os presentes nos Correios, pois eles mesmos se encarregam de fazer a entrega.

Não se assuste, no entanto, se encontrar uma cartinha com meu nome no remetente. Vou pedir sabe o quê? Um Papai Noel. Ou melhor, serei mais ambiciosa: pedirei, também, um Super-Herói. Unzinho apenas, qualquer um que, junto com o bom velhinho, traga um pouco mais de esperança para a Humanidade.

De brinde, se o doador quiser, pode mandar junto um vilão, um Lobo Mau que seja, para que a vida por aqui, tenha também, um pouco mais de aventura. Isto porque, o Lobo serve, de uma só vez, para assustar criancinhas gulosas e porquinhos preguiçosos. Ah! Mas, o Lobo Mau poderia servir mesmo é para amedrontar motoristas insuportáveis que jogam farol alto em nossos rostos, displicentemente, ou que insistem em nos ultrapassar em faixas contínuas.

Enquanto isso, o Super-Herói serviria para resgatar vítimas inocentes da imprudência no trânsito, antes que, veículos na contra-mão, colidissem com seus carros. E, o Papai Noel – apesar de aparecer na mesma época, mas ainda não ter comprovado por DNA, seu parentesco com Jesus Cristo – serviria para devolver a vida àqueles que não escaparam dos vilões das estradas.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 31/10/08.
priscillaporto@gmail.com
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24/10/2008 10:36
O PRIMEIRO TIRO

Havendo primeiro tiro ou não, para mim, a culpada não foi a polícia! Quem errou, foi o "Liso".

E quem erra agora é a imprensa! Quase não se sabe como está o marginal que jurava estar fazendo tudo por amor. E desde quando, amor mata? Gente de verdade mata o outro, ainda mais afirmando que o ama?

Nem se sabe direito por onde anda o "Liso". Mas se sabe o nome e a patente de todos os policiais que entraram no apartamento onde estavam as duas jovens reféns de um psicopata.

Análise são feitas, exaustivamente, dos minutos gravados que antecederam a invasão por peritos que utilizam tecnologias avançadas.

A imprensa está preocupada em saber, "informar" e analisar se houve ou não o primeiro tiro que deflagrou a invasão do apartamento em Santo André.

Mas, se realmente não houve esse tiro, o primeiro pode ter sido, então, o que atravessou o cérebro da menina de 15 anos, seus sonhos e suas esperanças. O primeiro tiro pode ter sido, na verdade, o que tirou da família uma irmã, uma filha, uma pessoa. O primeiro tiro pode ter sido aquele que anuncia o machismo de um homem que acreditou ser o dono da ex-namorada.

E, esse tiro, não foi a polícia quem disparou!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 24/10/08.
priscillaporto@gmail.com
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17/10/2008 11:03
"TÔ INDO BEM?"

Segundo minha mãe, meu pai e um papel cheio de letrinhas, também conhecimento como certidão de nascimento, hoje, dia 16 de outubro, é meu aniversário.

Já comemorei em algumas festas e, em outras vezes, a data caiu em dia que estive distante de quem tinha interesse em me ver feliz ao gritar: "Surpresa!". Perto ou longe, a essência deste dia, talvez seja parar um pouco para pensar.

Refletir se tenho seguido o caminho certo. Mas, poxa! O que é certo diante de tanta heterogeneidade, possibilidades e chances que temos de, a cada nascer do sol, mudar tudo o que já fomos e fizemos?

Ano passado era estudante, neste ano trabalho, no próximo posso estar casada, no outro, posso ter um filho. Entretanto, planejar pode ser ato arrogante e ilusório, diante do arquiteto maior que nos guia e, acredito sim, que já traçou para nós um caminho, uma direção talvez - a qual podemos seguir ou deixar para trás, assim como deixamos os cartões de aniversário de anos anteriores, que ficam em uma gaveta, um pouco amassados.

A hora é de pensar, de fazer uma análise do que já fiz e do que preciso, ainda, realizar; de lembrar das pessoas que fiz sorrir um pouco, como também de outras, que deixei chorar. A hora é de conectar-se a Deus (alguém aí pode me informar o msn Dele?) e mandar uma pergunta: "Tô indo bem?"

Tolice! Talvez ele simplesmente digite: você mesma é que encontrará a resposta.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 17/10/08.
priscillaporto@gmail.com
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10/10/2008 10:22
MUROS DAS LAMENTAÇÕES

Você já dorme, no dia anterior, reclamando que, no outro dia, terá que acordar cedo. E, se, o dia posterior, for a emblemática segunda-feira, meu Deus! A reclamação aumenta exponencialmente.

Então, quando acorda, você reclama que não dormiu direito. Ou estava calor demais ou a ingrata a preguiça fez você dormir a noite toda só com um cobertor, enquanto outros tantos esquentavam seu guarda-roupa - o qual, pelo menos, não reclama.

"Trabalho? Hum! Poderia ser sinônimo de eu vou para o meu "eu odeio"; tô indo para a "cruz da minha vida" ou tô atrasada para o "o quê que eu tô fazendo aqui?" Isto porque, quando você está desempregado, você mitifica o futuro ou um possível emprego e idolatra quem não está em casa assistindo "Sessão da Tarde", e sim, está fora de casa, ocupado com '"produtivas e sonhadas" horas trabalhadas. Mas, depois, meu amigo! Depois da carteira assinada, a história é outra! E nem é preciso comentar mais nada.

No campo afetivo, meu Deus! Você passa quase um terço da vida reclamando que não tem ninguém. Quando "arruma", reclama que o ser encontrado não é tão bonito quanto você gostaria, não chega nem perto de ser o titular de uma conta bancária um pouco mais recheada, ou está bem aquém do parceiro ideal com o qual você é que idealizava.

E você vai levantando, a cada dia, um tijolinho do seu imenso muro de lamentações. Só não se esqueça de não reclamar no dia em que tentar sair de casa e não conseguir mais abrir nenhuma porta.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 10/10/08.
priscillaporto@gmail.com
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04/10/2008 19:54
NÃO JOGUE NO LIXO DIREITOS QUE SÃO SEUS

A desigualdade social que assola países em desenvolvimento, como o Brasil, precisa ser minimizada com políticas públicas sérias, aliadas à educação e ao desenvolvimento tecnológico.

Embora apareça na mídia como país de destaque com relação aos recursos que possui, o Brasil ainda assusta quando são analisados os índices referentes à desigualdade social.

Isto porque, o que impera no país, ainda, é a cultura do "jeitinho brasileiro", a qual justificaria os esquemas de vantagens que circundam instituições e interesses daqueles que se julgam acima da lei. Cultura esta que favorece esta desigualdade.

E ainda, assim, escutamos, por aí, frases desoladoras como: "não vou votar em ninguém" ou "meu voto não faz diferença". E olha que, nestas Eleições, a oportunidade de escolha é de candidatos bem mais próximos do que em outros pleitos. Desta forma, a alienação também trabalha a favor da citada desigualdade.

O começo da mudança de um quadro estagnado e desanimador tem que partir de cada cidadão. Tem que partir da não omissão de cada pessoa, a qual deve cobrar do político eleito (não apenas daquele que recebeu seu voto), a execução das leis e o cumprimento de suas funções.

É preciso, igualmente, que as pessoas abandonem a mentalidade de repulsa à política, para que comece a se estruturar, em cada cidade e em todo país, uma nova configuração política e, acima de tudo, social.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 03/10/08.
priscillaporto@gmail.com
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19/09/2008 10:44
O OUTRO

Há pessoas que passam a vida procurando potes de ouro no armário dos outros. E a vida alheia o preocupa. O cargo do outro o preocupa. O salário do outro o preocupa. A posição social do outro o preocupa... Pessoas que trazem para si, preocupações absolutamente evitáveis.

E, enquanto isso, o tempo vai passando e a pessoa se esquece de ser mais dedicado. Esquece que salário pode sim condizer com muito trabalho. Esquece, enquanto se preocupa em encontrar a "maldita sorte do outro", de que tanto tempo gasto poderia ter sido bem melhor aproveitado.

Isto porque, para estas pessoas, elas sempre foram injustiçadas, enquanto o do outro sempre veio de maneira fácil. O delas teria que ter chegado primeiro. E, pior, o do outro não era para ter vindo tão rápido. E tudo porque se esquecem de que o outro estudou; o outro se dedicou; e que, o outro pode ter passado por diversos sacrifícios para "chegar" no lugar onde estas pessoas acreditam que "elas sim deveriam ter chegado".

E é tanta mesquinharia. Tanta falta de nobreza. Tanta falta de cultura e de coragem para seguir à procura de um pouco mais de sabedoria...

Tolice! Almas fracas não têm força de vontade.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 19/09/08.
priscillaporto@gmail.com
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12/09/2008 10:52
11 DE SETEMBRO

Não foi só nos EUA que, em um fatídico 11 de setembro, a história de diversas famílias e pessoas mudaram.

Quase toda pessoa possui um "11 de setembro" em sua vida. Quase todo ser humano acorda um dia, em que talvez não devesse, de maneira alguma, ter deixado os sonhos para trás e ter se levantado do refúgio da cama.

E os olhos se abrem para o mundo de maneira surpreendente e fatídica. Os parâmetros mudam. A rotina é virada ao avesso. Mas, ainda assim, ele tem que sair de casa. Ele tem que encarar o mundo. O mesmo mundo que irá lhe tirar o filho mais novo. A mesma vida que irá lhe virar a cara e lhe mandar para o olho da rua. O mesmo destino que irá fazer com que ele perca o parceiro para outra pessoa mais rica, mais bonita, mais nova.

E, a partir de então, a sua base, as suas torres e os seus castelos se desfazem. E os dias passam a ser cinzentos, sem graça, sem objetivo. E você precisa ir ao médico, precisa comer muito, precisa de fluoxetina... Precisa de qualquer coisa que faça com que você suporte sobreviver por aqui. E lhe falta tudo: chão, segurança, amor, auto-estima, esperança.

Tudo porque o principal, já foi embora há um bom tempo. No entanto, o que foi embora poderia ser a única coisa a te segurar em meio a uma catástrofe: a fé.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 12/09/08.
priscillaporto@gmail.com

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05/09/2008 12:40
SÓ UM COPINHO


Juliana acordou bem nesse dia. Era sábado, e ela adorava os sábados. Isto porque, no fim de semana, como adolescente que era, se produzia toda, ficava "viajando" sobre como seria a noite e quase sempre voltava para casa "feliz".

Ricardo acordou cedo e foi trabalhar na manhã de sábado. Era motorista de uma empresa de minério. Já dirigia há bons anos e, ao final do expediente, marcou com o amigo de irem a uma danceteria para "desestressarem".

Paula era amiga de Juliana. Amiga de infância. Acordou com a mãe pedindo para ela ajudar a fazer a feira e carregar as sacolas. "Ah! Mais tarde se arrumaria para sair com Juliana", pensou.

Bruno era amigo de Ricardo. Trabalhava em um supermercado. Saiu bem tarde de lá, quando Ricardo ligou para confirmar de saírem juntos.

Juliana, Ricardo, Paula e Bruno foram à mesma danceteria na noite de sábado e lá se conheceram. Na hora de ir embora, resolveram dar carona para as meninas. "Só um copinho não iria atrapalhar o motorista profissional a dirigir" – chegou a zombar.

Ricardo ficou vivo.

Bruno morreu.

Juliana morreu.

Paula não pode mais ajudar a mãe na feira. Está em uma cadeira de rodas.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 05/09/08.
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29/08/2008 10:36
O SEU (?) TEMPO, A SUA (?) VIDA

"- No entanto, só isso é pouco."

Às vezes, nem é "só", a pessoa tem uma família grande, muitos amigos, vai a muitas festas, vive intensamente. Mas não acredito que viver seja apenas vivenciar coisas ditas normais como: brincar na infância, estudar e levar a família para a formatura, conhecer o amor da vida para se casar, ter carro, casa e ter dinheiro para não passar por dificuldades.

Isto porque os seus dias vão se passando, bem como seus anos e as suas forças vão ficando menores. Mesmo assim, você gasta – talvez inconscientemente – todos os segundos que lhe foram dados de presentes fazendo apenas coisas ligadas a si mesmo ou aos que estão ao seu amado redor.

Seu cabelo toma um tempo absurdo dos seus finais de semana. A água que vai embora com a lavagem do carro leva junto milhares de segundos de uma vida. Para piorar, agora surgiu o orkut, e seu tempo desperdiçado também cuidando da vida dos outros, cresce exponencialmente. Resultado: com tudo isso, você deixa de cuidar de coisas e pessoas muito importantes.

A resposta acima, foi dada a uma pessoa que tinha curso superior, família estrutura, fazia churrascos uma vez por mês e nunca foi de se meter em confusões. A pergunta que foi feita no dia em que a pessoa se despediu daqui e foi se encontrar com o Ser superior: "Vivi direitinho, não foi, meu Senhor?"

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 29/08/08.
priscillaporto@gmail.com

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22/08/2008 09:22
E SE FOR O ÚLTIMO DIA?


Provavelmente, estou exatamente na metade dos dias que comporão meu ciclo de vida. Não por pessimismo, mas não sei se vou além dos 60...

Por isso, ao vislumbrar a data de hoje, 20 de agosto de 2008 ( data em que escrevo esta crônica ), comecei a fazer um balancete. Já fiz tanta coisa. Mas, há tanto, ainda, por fazer.

E se eu não estiver na metade, mas, no penúltimo dia de minha vida? E se eu morrer amanhã?

Bom, provavelmente, se isto acontecer, não sei mais quem vai cobrir nosso cachorro que, devido ao tamanho, já não dorme mais em sua ex-casinha (coitado! é quase um sem-teto).

Deixarei um guarda-roupa que dará muito trabalho para ser arrumado. Sem contar, no tanto de papéis - quase inúteis - que ainda não tive coragem de jogar fora.

E as contas que ainda não acabei de pagar? Pagará o prejuízo, quem um dia me deu crédito? Aliás, o que acontecerá com minhas três contas bancárias?

Provavelmente, estas questões darão um certo trabalho. Afinal, poxa vida! Ninguém passa por aqui, em vão. Nem que seja para atrapalhar um pouquinho a vida dos outros...

Mas, e os 139 livros que gostaria muito, mas, ainda não li? E os filmes que estão em uma listinha meio amassada, que não vi? Quem os verá por mim?

Poxa, ninguém poderá vê-los por mim. Ninguém poderá comer por mim. Ninguém poderá olhar pela janela do quarto com meus olhos. Os meus verdadeiros olhos.

Nossa... posso estar a um dia de minha despedida, mesmo tendo tanto ainda por vir.

E, ainda assim, insisto em ficar parada, quase como uma ameba, zapeando programas estúpidos de televisão.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 22/08/08.
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15/08/2008 10:31
"NÃO, PORQUE EU NÃO SOU PRECONCEITUOSO"

Desta vez, foi a suposta pátria dos iguais.

A China, país em que predomina uma semelhança física muito mais acentuada que em vários países do planeta, declarou ao mundo seu preconceito.

Uma menina foi, mundialmente, declarada bela, perfeita e a outra, dias depois, foi revelada como o patinho feio chinês. A primeira, Lin Miaoke, fez playback durante a abertura das Olimpíadas 2008. A segunda, Yang Peiyi, emprestou a sua voz para a canção que exaltou a pátria. Pátria esta que, em agradecimento, decretou que seu rosto tinha que "ficar de fora".

Ficar de fora – esta é a sentença para as pessoas que não se encaixam nos padrões.

Tal realidade muito me entristece. Estou cansada de lidar com tanto preconceito acerca de tudo em minha volta. "Pessoas" que execram os homossexuais. Falam deles como se fossem criminosos. Outras "pessoas" que olham de lado para quem está acima do peso e não consegue passar nas roletas de ônibus. Homens e mulheres que zombam daqueles que não são "sarados" ou não têm o cabelo mais liso e são "feios" demais para "pegar".

E estas "pessoas" ainda tem coragem de falar: "Não, porque eu não sou preconceituoso, mas aquele preto..."; "Não, porque eu não sou preconceituoso, mas aquele gay ..."

Preconceito por cima de preconceito, oriundo de pessoas que parecem não ter espelho em casa. Pessoas que se julgam perfeitas e se esquecem, completamente, de que não existe o perfeito. E pra falar a verdade, se existisse, elas seriam as primeiras a ter que sumir daqui.


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 15/08/08.
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08/08/2008 10:50
O QUINTO BOMBOM

Certa noite de julho, chegava em casa do trabalho, quando minha irmã, que um pouco antes trouxera de viagem, quatro bombons, distribuía três deles entre meus três sobrinhos – que passeavam por aqui de férias. O quarto bombom foi destinado ao meu pai.

Como amo chocolate, comecei a reclamar que queria um também. Mas, já era tarde e não havia um quinto bombom.

No entanto, alguns pais são como mães para seus filhos. E, embora, não lhes dêem o peito, não troquem suas fraldas pela madrugada e não tenham a mínima idéia do que seja a dor de um parto, têm por seu filho uma preocupação ímpar...

E por mais que os presentes não sejam tão bem escolhidos para o seu dia, o almoço não tenha tanta pompa, os cartões não sejam tão bonitos, eles têm pelos filhos um carinho desmedido...

E, embora, busquem os filhos pela madrugada, adolescentes de "caras viradas"; embora ensinem o filho a dirigir, mais este brigue por não poder usar tanto o carro; a filha ganhe a festa mais bonita de 15 anos, mas chora por não poder chegar em casa tarde; eles têm por seus filhos um sentimento incondicional...

Há pais nossos que não estão no céu e, por aqui, se esforçam ao máximo para nos dar o pão de cada dia, tentar nos fazer saber perdoar e não cair pelos nos caminhos tortuosos da vida.

Há pais que estão camuflados em graxa de tinta, em meio a reuniões de negócios ou quase se transformam em números de tanto trabalhar com contas. E, muitas vezes, não sobra tempo para uma palavra "de graça", uma troca de receita, um conselho sobre o pretendente a namorado.

Mas, não podemos nos esquecer de que o pai nosso também precisa de muito carinho.

Não havia um quinto bombom. Mas, meu pai pegou o seu bombom, o partiu e me deu a outra metade.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 08/08/08.
priscillaporto@gmail.com
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01/08/2008 11:25
CUIDADO COM A PRESTAÇÃO DE CONTAS

Sei lá pra que que tem gente que nasce.

Isto porque, tem gente que nasce, anda, fala, brinca, estuda, cresce,se forma, namora, casa, tem filhos, trabalha, junta dinheiro, viaja,aposenta-se e morre.

Tem gente que passa a limpo. Nasceu pra viver, mas pode-se dizer que nasceu por nascer.

Gente que joga papel no chão. Gente que gasta energia à toa. Gente que joga rios e rios de água fora. Gente que dirige bêbado. Gente que fuma maconha a rodo e esquece que está tragando junto a violência do maldito do tráfico de drogas. Gente que faz questão de passar os outros para trás. Gente que trai até a sombra. E a própria vida, não passa de uma sombra.

Pessoas, milhares de pessoas que passam a vida pensando em como é difícil cuidar do próprio umbigo. Nunca pensam nos outros. Nunca doam uma gota de sangue ou sequer um agasalho. Tem gente que não doa nem um bom dia ou um sorriso ao outro.

Uma coisa de assustar!

Mas, tem gente que quando abre a porta e se vê sentado diante do Chefe Maior, para a prestação de contas, chora, desespera-se, quase se arrepende, e tem carimbada sua folha corrida como espectro de gente. E passa a ter muito o que pagar...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 01/08/08.
priscillaporto@gmail.com
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25/07/2008 11:16
UMA CAMA NÃO ARRUMADA

Tem dias que é tão difícil ficar por aqui e é tão estranho...

E parece que não valeu a pena um segundo sequer depois do instante em que levantamos da cama.

Há dias que mereciam ser apagados do nosso calendário. Dias em que nada dá certo. E isto porque o que parece certo pra nós, não é c, não é e, não é r, não é t, não é o, e não se configura nem de perto do oposto do que é errado pra gente. Bem como para nosso mundinho, pois, na maioria das vezes não estamos inseridos em um mundo de mais de 5 bilhões de pessoas. Nosso mundinho se cerca de, no máximo, uns 60 indivíduos, isso quando não é só de um: o eu mesmo.

E uma cama não arrumada te faz brigar com sua irmã. A TV que ficou ligada a noite toda provoca discussão entre você e sua mãe. A conta alta de telefone te joga na cara xingos de teu pai. E toda discussão iniciada em casa é levada dentro da bolsa para o trabalho.

E lá, não é diferente. E tudo o que você vai fazer, com o mínimo de concentração, incrivelmente dá errado. O arquivo que você estava digitando para seu chefe e não salvou, vai pro espaço. Depois de digitar tudo de novo, a impressora não funciona. E quando resolve funcionar, o cartucho acaba.

Mas, estranhamente, seu chefe precisa ir embora mais cedo e deixa o relatório para o outro dia.

Só não fica para amanhã, a sensação de dia jogado fora. Sendo que não era o dia que gostaria de ir para a lata de lixo.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 25/07/08.
priscillaporto@gmail.com
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18/07/2008 11:32
Antes fosse metáfora

Joana era tia-avó de um menino de três anos, o qual era o seu xodó.

O garoto, morava no Rio e a tia-avó morava em um "cantão" no estado do Pará. Lugarejo pobre e carente do país.

Luz para todos não tinha. Nem para Joana. Fome zero era rara no lugar. Bolsa nem as de pano, nem outra qualquer para a Família. Mas, afeto tinha de sobra. João era o xodó de Joana.

Em tal "cantão", não havia nem luz, nem internet, nem TV, nem rádio. A única forma de receber notícias distantes era por carta. E, deste modo, Joana ficou sabendo do nascimento de João, do seu batizado, do seu primeiro passo, das primeiras palavras. Também vieram por cartas, três adoradas fotos do pequeno menino.

Em uma tarde de certa seca quinta-feira, Joana recebeu outra carta. Atrasada por greve dos Correios. Nela, leu notícia de quase cair dura. Notícia impossível de acreditar: o sobrinho-neto havia morrido. Com apenas três anos.

E não tinha morrido de pneumonia ou outra doença qualquer. Tinha morrido com bala na cabeça. Joana ficou perdida. A bala não foi perdida. Veio das armas de policiais militares da cidade maravilhosa. A cidade, a sociedade, a violência que lhe mandavam notícia de óbito de seu xodozinho.

Notícia atrasada, mas nem por isso menos triste, de um sociedade sem conserto.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 18/07/08.
priscillaporto@gmail.com
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11/07/2008 11:16
Mulher, não apanhe!

Na crônica passada, as meninas que - no título - não deveriam se casar são as mulheres que nunca deixam para trás as ilusões de meninas. Talvez, todas. Mulher é sensível demais para deixar de sonhar.

Mas, certos sonhos viram pesadelos e há mulheres que, ainda assim, não conseguem deles se livrar. Apanham, vêem os filhos apanharem, as filhas serem molestadas, são traídas e, além de tudo, proibidas de sair de casa. Não vivem, têm sobrevida. Isto porque, há homens maus. Homens que acreditam que suas mulheres são objetos de manipulação ou bichos com os quais, para se igualarem, só falta terem seus corpos marcados a ferro quente com a letra de seu “dono”.

Entretanto, alguns homens deixam sim, nelas, as suas marcas. Inúmeras vezes visíveis e outras vezes, talvez mais profundas, pois coabitam suas almas.

Assim, como Luiza, Maria apanhava do marido. Até receber dele um tiro nas costas e ficar paraplégica no ano de 1983. Seu caso ficou “famoso” e seu nome, Maria da Penha, virou nome de lei brasileira criada, em agosto de 2006, para proteger mulheres vítimas de violência doméstica.

Tal lei endurece as penas para tais “homens”. Estes agressores podem ser presos em flagrante ou terem decretada a prisão preventiva. A pena máxima passa de um para três anos de detenção.

As penas endureceram. Mas os sonhos de menina, provavelmente, ainda povoam os corações de tais mulheres. Por isso, meninas, não deixem seus sonhos e suas vidas para trás. Mulheres, não apanhem!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 11/07/08.
priscillaporto@gmail.com
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04/07/2008 14:40
AS MENINAS NÃO DEVERIAM SE CASAR


Luiza nasceu em família de quatro homens mais velhos e ela, de mulher. Em casa, o sistema ou a "educação" era rígida.

Enquanto os irmãos podiam tudo, a ela restava a casa. As vasilhas, as vassouras, as roupas sujas – para serem bem lavadas.

Talvez por isso, ou talvez por ler muito romance açucarado e ver novela das seis e das sete (Das oito, não lhe era permitido), sonhava com o fictício Príncipe Encantado. (O qual não sei de que lenda surgiu. Se, hoje, é espécime rara, imagina se antes de Cristo existiria homem com tal honraria?)

Quando cresceu um pouco, Luiza conheceu João, que gostaria muito de namorar com ela. O pai proibiu veementemente. A mãe, apenas sentia pena da filha. Talvez sentindo pena de si mesma.

Não agüentando mais as rédeas do pai, Luiza ficou com João. Casaram-se. Fugiu de uma prisão para cair em outra. Sentiu na pele a desilusão de se ter os sonhos ceifados. A crença de que o outro poderia lhe completar. Poderia ser a válvula de escape. Não conseguiu resolver problemas em sua própria família - advindos de uma sociedade machista - e passou a conviver com "novos" problemas. João acreditava mandar em Luiza e batia nela.

Desde então, Luiza passou a ser uma mulher muito triste. Pois, o outro a fazia acreditar que não dependia somente dela, a solução para a perda de seus sonhos de menina.

(Continua...)

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 04/07/08.
priscillaporto@gmail.com
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27/06/2008 22:16
MUITO MOÇO PRA TANTA TRISTEZA

Há muito tempo, quando era pequena, tocava na minha casa uma música cuja letra dizia: "Eu só queria ter do mato/Um gosto de framboesa/Pra correr entre os canteiros/E esconder minha tristeza./ E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza .../E deixemos de coisa, cuidemos da vida./Senão chega a morte/Ou coisa parecida./E nos arrasta moço/Sem ter visto a vida."

Gostava já da melodia, mas não atentava muito para a letra. Tampouco para seu sentido.

Há três anos, quando estudava em Viçosa, fui à entrega de prêmios de um Concurso de Poesia e a cantora, acompanhada de violinista, cantou a música – cuja letra é uma poesia de Cecília Meireles. Tratava-se de "Canteiros", conhecida como música de Fagner.

Agora, além da letra admiro muito sua essência.

Só não entendo muito porque as pessoas andam tão tristes, ainda jovens. A depressão assola enorme porcentagem de adolescentes e, até mesmo, pré-adolescentes.

E o stress, o vazio, a falta de fé e a falta de esperança vão assolando as pessoas e arriscando que a sociedade vire um aglomerado de sobrevidas.


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 27/06/08.
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23/06/2008 22:52
VIDA ANDARILHA

Coisas dadas como certas são chatas, quase insuportáveis.

O crescer como a menina dos olhos da família. O ficar, namorar, noivar e casar.

O estudar, formar e trabalhar na melhor empresa que um recém-formado poderia almejar.

O juntar dinheiro e comprar uma bicicleta, uma moto, um carro, uma casa com piscina.

Tudo balela!

Se tudo fosse certinho, ninguém estaria por aqui.

O mundo ou a Terra, pelo menos, é a casa dos erros infinitos. E, nas entrelinhas, somos, não raramente, castigados.

Orelha de burro. Joelho no milho. Perdas. Perdas infinitas...

Só há começo de caminho. O resto é tudo ilusório. Basta, para atestar tal fato, a ronda constante de uma senhora ardilosa que pode nos obrigar a uma passagem não muito agradável a qualquer momento...

E, ainda assim, a Igreja prega a virgindade.

A escola prega a obediência.

A sociedade prega a civilidade.

As pessoas pregam a sanidade.

Sanidade?

Algumas semanas atrás, uma andarilha próxima à rodoviária de BH, talvez mais suja do que a calçada em que pisava, conversava efusivamente. Com os que passavam em seus carros blindados? Não. Conversava com seu amigo imaginário, o qual pela raiva que lhe era imposta, parecia ter aprontado muito. Imaginário?

Quem sabe não era um filho que ela havia, há muito, perdido?

Pelo menos, era alguém que ainda lhe dava ouvidos.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/06/08.
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15/06/2008 17:43
MAIS QUE UM "EU TE AMO"

Às vezes, o tempo vai passando, e acreditamos que não encontraremos mais a pessoa especial. A pessoa que nos entende. Ou aquele que, pelo menos, aceita bem os nossos defeitos, erros e, por que não, desejos...

Mas, um dia daqueles, sem mais nem menos... um dia do quase insignificante janeiro, não é que encontramos?

E uma troca de olhar passa a ser especial. Um telefonema passa a ser especial. Um beijo, torna-se o beijo. E outros beijos não importam mais...

E o tempo que passamos juntos passa tão rápido, que parecem criar uma passagem de tempo à parte, na qual os ponteiros do relógio são agilizados.

E, assim como os ponteiros do relógio, as coisas se configuram de forma diferente. As cores, as datas comemorativas, os filmes no cinema, as saídas aos bares...

E os sonhos, passam a ser sonhados juntos. Ou, senão juntos, diversas vezes compartilhados.

E você mantém sua individualidade, mas, para quase tudo o que vai fazer, você lembra que existe o outro. A pessoa especial.

E, em uma noite, depois de uma briga, uma frase torna-se mais importante do que o "eu te amo" dito em um passeio feliz. "Você é tudo pra mim" são as palavras que não se esquecerá jamais...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 13/06/08.
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08/06/2008 12:46
QUE SE DANE!

Já há muito tempo se fala em falta de água potável para as próximas gerações. A onda, agora, é a preocupação em volta da escassez de alimentos.

No entanto, culpamos sempre os outros. Só eles jogam o papel de bala no chão. A embalagem de cheeps pelo vidro do carro. A casca de banana pela janela.

Só eles escovam os dentes o tempo todo com a torneira da pia aberta. Só eles tomam banhos de quarenta minutos. Só eles gastam rios inteiros de água lavando, quase todos os dias, a calçada das suas casas.

O problema todo advém, sem sombra de dúvida, da escassez da consciência.

E que se dane todo mundo! O habitante do outro lado do mundo, do outro continente, do outro país, do outro estado, da outra cidade, da outra casa. Ah! Que se dane, igualmente, a pessoa ao lado do seu quarto, seja seu filho, sua irmã, seu pai, sua mãe...

Que se dane, se duvidar, até a sua sombra!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 06/06/08.
priscillaporto@gmail.com
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30/05/2008 14:25
MUITO...

...sozinho, parece pouco. Já se o título acima fosse "pouco", estranhamente, a sensação seria superior.

Como quando somos pequenos e queremos ser adultos. Porém, já adultos, perdemos tanto. E quando crianças os sentimentos, os sonhos e as ilusões pareciam ser (ou realmente eram) muito melhores.

Pontos de vistas norteiam o modus vivendi das pessoas. Você pode passar o dia inteiro enfiado dentro das quatro paredes do seu trabalho e, mesmo assim, não se esquecer dos horizontes, do algo "a mais", do elixir mágico que lhe é jogado assim que você se levanta da amorosa cama. Por outro lado, você pode viver enfurnado em casa ou a vagar pelas ruas e, nem perceber, o quanto olhar para uma nuvem se espessando, uma janela se abrindo ou um pássaro plainando é único - e que bilhões de pessoas que foram quase iguais a você, já não podem fazer mais.

Não há no google ou nos livros da Ana Maria Braga, a receita de como viver bem. Para uns, viver bem é seguir um caminho, para outros pode ser sempre esperar que o caminho apareça.

Talvez, mas nem tenho a reles certeza, o certo seja respeitar o modo de viver que cada um escolhe. Muito ou pouco são conceitos, são palavras. E o que elas podem dizer ou expressar dificilmente alcança a unicidade de "ser'.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 30/05/08.
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23/05/2008 19:39
OS FANTASMAS QUE OS BRASILEIROS NÃO MERECEM

E volta à cena, a possibilidade do retorno da nossa ex-odiada CPMF. E retorna, (ora, ora!), com promessa de ser a salva-vidas do nosso caótico sistema de saúde nacional. Como se, durante todos aqueles anos em que os nossos centavinhos saíram de nossas escassas contas, o atendimento nos hospitais e postos de saúde tivessem, um pouco que fosse, melhorado.

Da mesma forma, o casal Nardoni havia camuflado - por tempo talvez até maior do que o necessário - as notícias sobre as eleições para o novo presidente dos EUA. E não é que, agora, a disputa democrata é que, volta à cena, e deixa para trás as imagens dos rostos impassíveis de Alexandre Nardoni e Anna Jatobá?

Não entendo o porquê de tanto espaço dado a tais eleições em nossa mídia. Vai lá o fato de, infelizmente, estarmos falando da maior economia do mundo. Entretanto, acredito que, por exemplo, notícias sobre a América do Sul seriam, para os brasileiros, bem mais proveitosas.

Afinal de contas, sabemos sobre Bush, Barack Obama e Hillary Clinton. Porém, alguém por aí, sabe, por exemplo, quem é o presidente da Guiana Francesa? Ou quais países fazem parte do Mercosul?

Pois, é, nosso produtos são made in Paraguay. Mas, nossas cabeças são manipuladas mesmos by USA.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 23/05/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto



17/05/2008 20:04
MEU, SEU, SUA?

Um dia, você percebe que pode estar sozinho por aqui.
Pois, por mais que você tenha pai e mãe e um monte de irmãos, às
vezes, a solidão é tão aguda... Surge em filetes até crescer, crescer e tomar seus pensamentos, sonhos e expectativas.

E parece que seus pais ficaram menos dependentes de você e você mais distante deles. Ficou para trás a coragem de deitar no colo de sua mãe e sentir aquelas mãos doces acariciando seus cabelos e fazendo você esquecer que existem problemas no mundo.

Da mesma forma, os irmãos vão indo, aos poucos, embora. Até "arrumam" para você cunhados, cunhadas e sobrinhos. Mas que, após o feriado juntos, entram no carro e deixam você e a saudade para trás...

Nesta fase, os amigos da escola já quase te esqueceram oompletamente. E o máximo que acontece, quando se encontram, é se estranharem, por estarem mais magros ou muito mais gordos. E o mundo habitado por bilhões de pessoas quase iguais a você mostra-se extremamente cruel, pois você percebe que pode ter roupas,dinheiro, casas e milhares de coisas. No entanto, seres humanos você não pode ter. Ninguém. Nem um exemplarzinho sequer. Pequeno, grande,magro, gordo, bonito, feito, ocidental, oriental... nenhum deles pode ser seu. E por mais que você encha a boca para afirmar que ele é "seu
marido", ela é "sua esposa", ou aqueles são "seus filhos", o pronome possessivo é virtual quando relacionado às pessoas.


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 16/05/08.
priscillaporto@gmail.com
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11/05/2008 18:39
DÊ OUTRO TIPO DE BÔNUS PARA SUA MÃE DE PRESENTE


Mães deveriam ganhar, como nas promoções atuais da telefonia celular brasileira, bônus por créditos adquiridos, ou melhor, no caso delas, pelos "serviços" prestados.

E não me venham com esta história de que já ganham ao receberem um sorriso ou de que ser mãe é padecer no paraíso. Já está na hora das mães serem devidamente recompensadas por algumas ingratidões dos filhos.

Deste modo, as mães brasileiras, ganhariam bônus de R$50,00 pelo olhar atravessado do filho que não gostou de receber ordem para arrumar o quarto.

Bônus de R$100,00 por cada meia, par de sapato e toalha molhada recolhidos dos filhos que são incapazes de manter um copo que seja no seu devido lugar.

Bônus de R$500,00 pelo "Que saco!" mentalizado pela filha que não gostou de ter que desligar o telefone depois de ficar mais de meia hora conversando com a melhor amiga.

Bônus de R$1000,00 pelo constrangimento de ter que ligar para metade da cidade para encontrar a filha que disse que dormiria na casa da colega.

Bônus de R$1500,00 pela porta batida na cara, pelo filho colocado de castigo, após ter chegado bêbado em casa.

Bônus de valor infinito pelo não recebimento, no próximo domingo, de um abraço dos filhos, embalado com amor de verdade.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 09/05/08.
priscillaporto@gmail.com
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03/05/2008 01:01
1 PESSOA MORTA A CADA 48 HORAS

Certa vez, em uma explanação sobre a Primeira Parada Gay de Ouro Preto, dois homens e uma mulher que se encontravam na platéia, próximos a mim, não paravam de achincalhar o expositor. E isto, mesmo enquanto ele falava, entre várias questões sérias, que, no Brasil um homossexual é morto a cada 48 horas no Brasil.

Não entendo porque a homofobia é tão grande em um planeta onde ninguém é igual e tampouco se pode chegar à conclusão de que alguma coisa seja normal. Porque o homem ou a mulher que não são heterossexuais incomodam tanto e, incomodam mais ainda, se forem felizes?

A outra vez que tive a infelicidade de presenciar comportamento tão desprezível, foi no laboratório de informática da universidade em que estudei. Ao meu lado, três rapazes começaram a fazer tanta algazarra, que não teve como eu não olhar. Assistiam no youtube, a um vídeo de uma festa gay, na qual um dos presentes estava vestido de mulher. Riam muito e não paravam de xingar o homem. Entretanto, não paravam também de ver o vídeo. Mostravam-se enojados, mas não mudavam de site ou de tela. Não agüentei. Deixei o trabalho que fazia pela metade e desliguei o micro.

Mas, o que gostaria de verdade, é de ter desligado a mente daqueles três cérebros pobres de estudantes universitários (!).

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 02/05/08.
priscillaporto@gmail.com
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29/04/2008 00:12
A LINHA E OS OLHOS DE DEUS

Quando seu cordão umbilical foi cortado e, alguns dias depois, você perdeu o pedaço que lhe restava, a impressão foi de que estaria liberto? Enganou-se!

Isto porque, a partir daquele momento, você passou a estar ligado a uma linha, a qual tem alguém lá da cima monitorando. Às vezes, soltando um pouquinho e outras, dando muita corda, a qual não são poucos os que a engole...

Poderíamos ter recebido um crachá ao nascermos, mas seria explícito demais. O que uma pessoa ou não pessoa (o que talvez seja mais propício) é, está estampado em seus olhos.

Por isso, conhecemos em nossa estadia por aqui, olhos tão profundos. Olhos tão piedosos. Olhos tão aconchegantes e outros, olhos tão falsos...

Pessoas não precisariam de orelhas, bocas, braços, pernas e vasto aglomerado de pele, osso e e aminoácidos... Bastaria que o mundo fosse um amontoado de olhos flutuantes que se cruzariam e, já diriam - sem palavras - tudo, uns aos outros.

Mas, mesmo esse "tipo" diferente de pessoa estaria ligada a uma linha tênue entre a mentira e a verdade. Entre o valer a pena estar por aqui e o estar por aqui apenas para prejudicar aos outros. Linha esta que seria a qualquer momento conduzida para cima, ou que, em justa homenagem, seria repassada para as mãos de um ser lá de baixo e pouco nobre...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 25/04/08.
priscillaporto@gmail.com
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18/04/2008 14:16
AS HISTÓRIAS POR TRÁS DAS PESSOAS

Certa vez, participei de um grupo de teatro em que uma das cenas curtas a serem encenadas contaria com personagem, à primeira vista, não tão nobre. A atriz, apesar de iniciante, nos emocionava muito com a personificação daquela história.

Tratava-se da "Macabéa" de Clarice Lispector. Ou melhor, do livro "A Hora da Estrela" de Lispector.

Anos depois, morei com ela. Não a Clarice. Quem me dera! Mas era intrigante... Atendia por outro nome, obviamente. Uma pessoa como aquela não resistiria a tanta fama. No entanto, sua personalidade não conseguiu esconder. Tampouco sua fisionomia. Como se Clarice tivesse feito uma viagem ao futuro, conhecido sua personagem e, antecipado a história daquela vida rala, precária, mas, nem por isso, insignificante. Até as roupas usadas, em pleno século XXI, remetiam a uma década passada. A semelhança era tanta, que não havia como justificar outra inspiração para aquela história.

Da mesma forma, tive a certeza, um dia, de ter conhecido o Dom Quixote. Só que, em sua versão feminina. Também! O que podem fazer os escritores... Ainda mais um Cervantes. Mas isso é história para outra crônica. Não cabem neste espaço de centímetros quadrados, simultaneamente, dois personagens tão grandiosos.

Criatura virada ao avesso morava em um apartamento de meninas no interior mineiro. Não era mulher nordestina. E, não venham me contar outra história!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 18/04/08.
priscillaporto@gmail.com
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11/04/2008 21:34
SOBRE A PORTA MÁGICA CITADA

Na crônica passada, falei sobre defeitos de fabricação das pessoas e, agora, desejo protestar contra a inexistência do mundo paralelo e da porta mágica que a ele nos daria entrada.

Acordar, trabalhar, dormir, comer, dançar, beber, comprar... são as atividades corriqueiras do curriculam vitae extra-oficial das pessoas. E ainda que se pule de pára-quedas, que se entupa de entorpecentes, que se viaje todo ano para os lugares mais exóticos do mundo, o ser humano sempre achará tudo isso pouco.

Isto porque "tudo" é palavra que nem precisaria existir em nosso dicionário. Ninguém nunca acredita já ter se deparado com ela. Todos a desejam compulsivamente, mas por mais que a tenham, nunca acreditam tê-la alcançado.

Entretanto, venho por meio desta, também protestar, em meu papel de humana, sobre a impossibilidade da fuga atrás do "além-terra" possível. Não precisaríamos estar aqui o tempo todo. Às vezes, nossos familiares de nós enjoam. Às vezes, é o parceiro. Às vezes, e não poucas vezes, nós mesmos já não agüentamos mais olhar para nossa cara ao espelho.

Que bom seria, então, em um tarde de quinta-feira, por exemplo, de repente ir assistir a um filminho com a nossa Excelência maior. E entre um take e outro, falar com Ele sobre algumas bobagens nossas...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 11/04/08.
priscillaporto@gmail.com
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04/04/2008 16:10
FALTOU AÍ, DEUS!

Foram sete dias. Pouco para tanta complexidade, não? Mas, Deus é Deus, ora! Operário padrão do Universo. Eleito e reeleito várias vezes o funcionário do mês da Galáxia.

Mas, ainda ficou faltando alguma coisa, a qual está ligada ao defeito de fabricação de uma espécie. E nem precisa dizer qual, não é?

Pois, devido a tantos defeitos, há tanta briga, injustiça, falsidade e sofrimento aqui ao lado, na cidade vizinha, estado, país... Onde quer que se vá, as pessoas, fisicamente, se convergem. No entanto, com relação aos sentimentos e ao caráter, tá difícil, viu!

Gostaria de, por isso, mandar uma mensagem para a "caixinha de sugestões" da Galáxia, na esperança de que seja lida por Ele, reivindicando três coisas:

A primeira, a criação de um mundo paralelo, para quando a gente se deparasse com uma das atrocidades citadas acima, pudéssemos abrir uma porta mágica e nos jogar lá dentro.

A segunda, o recall dos seres humanos com defeitos de fabricação. Mas, poxa! Ia ter que subir (ou descer) tanta gente!

E, a terceira, e talvez mais viável, que as pessoas fossem mais sensatas, mais sensíveis e não quisessem machucar tanto ao outro.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 04/04/08.
priscillaporto@gmail.com
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30/03/2008 21:17
"EU MEREÇO"

Amor bom. Pra falar a verdade, amor dos melhores. Não! O melhor.

Comida agradável. Pra falar a verdade, das melhores. Pensando bem, só mereço comida boa.

Bebida. Hum! Champagne pra cima! Ora, ora!

Carros importados, roupas e sapatos caros, de marcas e que, de preferência, ninguém apareça, em um raio de uns 500 quilômetros, com algo igual ou parecido por perto.

Freqüentar os melhores lugares. Os ambientes mais agradáveis, mesmo que custem os olhos da minha e de todas as caras ali presentes...

Pode parecer soberba e, na verdade, é soberba!

Mas, é freqüente. Não é rara. E é estranho, muito estranho, como surge. Às vezes, nasce junto - é a famosa "de berço". Às vezes, vem por golpe de sorte, ou seria o contrário? Às vezes, chega mesmo, por causa de algumas casas decimais, a mais, no contracheque.

Números que transformam o mais simples dos seres humanos, na pessoa mais entojada da face requintada da Terra.

E tudo pra quê, gente? Se todos acabam mudos, surdos, carecas e com os narizinhos empinados carcomidos por bichos que não conseguem nem sequer se locomover além da superfície rasa da mesma terra?

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 28/03/08.
priscillaporto@gmail.com
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22/03/2008 10:24
OS PÉS DE JOÃO

Viajava no banco da frente e ele, no de trás. Toda hora pedia que eu repetisse a música "Rodo Cotidiano", na versão em que o Falcão canta acompanhado da Maria Rita. Às vezes, pedia também a música "Papo Reto" do Charlie Brown Jr., apesar de ter apenas oito inocentes anos.

É engraçado como, desde pequeno, ele decora as letras completas das músicas, de qualquer estilo e, do nada, começa a cantarolar. Como foi inusitado, de repente, ver seu pé direito se esgueirando e ouvir a voz doce lá de trás pedindo "faz tatuagem"?

Isto poque, na falta de papel, João viu que anotei algo na mão, à caneta, o que fez-lhe brotar a idéia. Aceitei. Desenhei um elefante. Ele pediu: "Faz outra? Tem espaço." Fiz uma flor. Pediu de novo. E de novo. E de novo. E ofereceu o outro pé. Depois, a mão direita. Depois a esquerda.

Tentei negociar de todas as maneiras a parada da brincadeira de tia cansada do sobrinho incansável. "A tinta está acabando", "Não sei mais o que desenhar," "Não tem mais espaço". Tudo em vão.

Contra aquilo não havia argumento: a atenção dada a uma criança. Com certeza, João Vitor, meu sobrinho mais novo não estava feliz apenas com tatuagens de caneta, que a primeira água apagaria. Sua alegria era de sentir o contato, a descontração e o carinho desenhado em curvas e retas tortas.

Com um tempo tão escasso, os pés de João Vitor, chegando de mansinho no banco da frente, ficarão, com certeza, por muito tempo, na dele e na minha memória.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 20/03/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto



07/03/2008 10:36
CONTROL C - CONTROL V

Desci a rua da escadinha e logo o avistei, na porta da Igreja do Pilar. Bonito, calmo, talvez um tanto desanimado. Talvez reflexivo. O que poderia ser de se esperar, uma vez que observava da porta aberta, a missa lá dentro.

No clima, um ar de mudança. Obviamente, oriunda da alteração no trânsito no bairro, a qual estranhei, confesso. Entretanto, enquanto não se concretizar, prefiro não tecer comentários. Toda mudança trás conseqüências, mas tomara Deus que sejam as melhores possíveis.

Porém, mudar, nem sempre é fácil. Exemplo temos, contemporaneamente e tendenciosamente para o resto da vida, do famoso e não tão glorioso Control C, Control V. As famosas quatro teclas do computador capazes de agilizarem, ao máximo, um trabalho e minguar, também ao máximo, a imaginação humana.

Na verdade, quem encontrava-se à porta da Igreja do Pilar, era um cachorro, vira-lata, meio amarelo. E, logo que o vi, fiquei pensando se eu não poderia ser uma cópia dele e ele minha, devido à proximidade que senti do bichinho, à beira da prece, como fico tantas vezes.

Então, comecei a imaginar o que será da humanidade se, até Deus resolver começar a "criar vidas" à base do CRTL+C, CRTL+V. Já pensou? O que Ele iria escolher: fazer cópias de cachorros ou cópias de gente? Vai saber...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 07/03/08.
priscillaporto@gmail.com
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29/02/2008 10:41
"OI, TIA! NASCI!"


Seria um pecado olhar as coisas por um ângulo quixotesco? E, consequentemente, entregar-se a uma eterna luta contra moinhos de vento?

Pois, não poucas vezes, essa é a conduta adotada. Complicar, complicar mais um pouco, complicar em nível preocupante, até não conseguir mais sair de uma complicação que se apresenta real, mas que foi, por nós mesmos, inventada.

Talvez, isto ocorra, porque, atualmente, refletimos pouco. Talvez porque, sentar à beira da rua, folhear as páginas de um bom livro e deixar a imaginação rolar solta, faça parte de um mundo utópico, embora de origem adversa à dos moinhos de vento.

Mas, o que fazer se fomos ou estamos privados da liberdade de fantasiar, para não corrermos o risco de sermos taxados de loucos ou de pessoas com pouquíssima coisa para se fazer? E, se primeiramente, vieram o cinema e a televisão (deixemos de fora o rádio, pois, este, ainda faz o ouvinte pensar ou exercitar, um pouquinho que seja, a sua imaginação), posteriormente, vieram os vídeo-games, computadores, internet, celular, mp4, 5, 6, 7 e o diabo também informatizado a 4, 5, 6 etc.

E o problema todo pode estar no fato de que, nós, de gerações que ainda conheceram o disco de vinil, a máquina de escrever e as fichas de telefones públicos, ainda tenhamos pequenos surtos nostálgicos e clamemos por um pouco de bucolismo. Mas, e quem já nasce quase mandando sms para tia distante, com os escritos "Oi, tia! Nasci!", e, quando criança já sabe usar computador, máquina digital e celular, vai se interessar pelos livros e pelo exercício de imaginação, por quê?


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 29/02/08.
priscillaporto@gmail.com
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23/02/2008 12:54
ESTRANHOS MEDOS HUMANOS

Às vezes, parece que a humanidade é regida pelos seus medos. Não os "recentes" medo de ser seqüestrado, ainda que rapidamente; medo de ser o alvo certeiro de uma bala perdida ou o medo de limparem toda a sua conta bancária via internet. Os medos a que me refiro são outros e gostaria de falar sobre quatro deles.

1°) O medo de morrer. Talvez o mais controverso deles, afinal, chamamos esse nosso contar de dias de "vida", mas estamos cada vez mais distantes do nosso nascimento e cada vez mais próximos da possibilidade de morrer. E, não há como balizar o que é pior: não termos nossa hora previamente marcada ou a possibilidade de receber um cartão pelo correio, anunciando local, dia e hora do fatídico acontecimento. Neste caso, acho que sai ganhando mesmo é o fator surpresa.

2°) O medo de não se enquadrar no padrão estético contemporâneo. Igualmente controverso, uma vez que, pelo menos o "lado de cá" é um aglomerado de milhares de gente alta/baixa, calva/cabeluda, magra/gorda, e passa de longe da semelhança oriental chinesa e japonesa, por exemplo.

3º) O medo de ficar sozinha. Este, responsável pelo desespero que as mulheres demonstram em não quererem ficar para "titia" e desejarem se casar a qualquer custo, idade e, por tabela, com qualquer pretendente. Tudo em vão, pois marido, ultimamente, é o primeiro que vai embora. E, ainda pode deixar a pobrezinha "cheia" de filhos, os quais, não demorarão muito a, igualmente, deixá-la sozinha.

4°) E, por último, o medo de não ser considerado normal. Acontece que, quando uma pessoa acredita que está sozinha em algum lugar, ela faz cada coisa...


Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 22/02/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto



15/02/2008 09:45
O SEU, O MEU E OS NOSSOS CARTÕES

Você está desempregado e não é todo dia que acorda cedo para correr como um louco atrás de alguns poucos reais, nem tão pomposos quanto o nome que os denomina. Então, naquelas manhãs em que a cama te abriga afavelmente, ludibriando a dor que habita seu bolso e consciência, você não bate cartão?

Ou você é aposentado. E acabou quase tudo: o terço de tempo que você consumia sua vida dedicando-se - nem sempre tão sinceramente - ao trabalho, bem como o tempo de escravidão destinado ao malfeitor relógio. Conseqüentemente, você não precisa mais dormir cedo e perder o Programa do Jô e, melhor, muito melhor, não precisa nunca mais acordar cedo! Sendo assim, você não bate cartão?

Bom, você pode ser uma criança, de uns quatro anos ou menos. Daquelas poucas que ainda não freqüentam precocemente as badaladas escolas infantis do bairro. Acorda lá pras oito e meia, mas mantêm-se, preguiçosamente na cama, assistindo aos "Padrinhos Mágicos". Na realidade, passa quase o dia todo na frente de telas quadradas: da TV, do vídeo-game e do computador. Definitivamente, você não bate cartão?

Enganam-se! Nossa vida é regida por inúmeros cartões, os quais estão "maniqueistamente" divididos em duas categorias: os bem-vindos e os indesejáveis. Os primeiros são aqueles cartões de felicitações, aniversários e boas "quaisquer" festas. Os segundos, os cartões de crédito, débito e qualquer outro que te faça lembrar que existe o "chiquérrimo" dinheiro eletrônico mas que, no fundo, o saldo negativo é sempre igual. E eis que entra em cena o astronômico, esbanjador e de origem quase desconhecida, cartão corporativo. Seria este um híbrido das duas categorias?

De qualquer forma, tendo você um deles ou não, há um cartão ao qual estamos todos submetidos: o cartão de crédito e débito do Senhor. Nele, desde seu primeiro dia de nascimento, Deus está faturando seus dias. E, ao final de tudo, meu amigo, você terá que prestar muitas contas...

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 15/02/08.
priscillaporto@gmail.com
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08/02/2008 11:10
O MUNDO DE JOAQUIM

O mundo para Joaquim era meio diferente.

Para ele não importava muito ter o celular do momento, muito menos se os seus créditos iriam vencer daqui a 20, 30 ou 90 dias.

Para ele não importava tanto ter um carro do ano 1.8, se já tinha o seu 1.0, o qual conseguia andar pelos mesmos lugares, tinha prestações menores e, de quebra, poderia fazê-lo correr bem menos riscos. Além disso, não usaria seu carro de isca para fisgar as mocinhas, uma vez que já amava uma e por ela também era amado. E, se assim não fosse, poderia ser trocado a cada novo lançamento.

Para ele não importava muito ter um monte de e-mails, msn, orkut ou qualquer outro eletrônico endereço. Embora quem possua tanta conectividade acredite saber excessivamente da vida dos outros, ele, com certeza, sabia muito mais...

Isto porque, ouvia os amigos. Não queria só falar, falar e falar. E esquecer que também seus ouvidos tinham utilidades maiores do que aquele massagear gostoso de cotonetes, quando se está limpando as orelhas.

Para os amigos dedicava carinho, palavras doces, olhares verdadeiros. Atributos oriundos de um mundo à parte. O mundo no qual, parar um minutinho não era estressante. Olhar a forma de uma nuvem no céu no meio do expediente, era imaginável. Desligar a TV no ápice do último capítulo da novela, não era condenável. Viver sem tantas maluquices, invenções e modernas pseudo-necessidades ainda era possível.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 08/02/08.
priscillaporto@gmail.com
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01/02/2008 10:16
DIA DE FAXINA

Não era dia de semana, nem sábado ou domingo. Tampouco feriado. Há alguns dias, já vinha mandando água pra baixo. Muita. Enxurrada. Pra lavar canto, pé sujo, trouxas, encardido e sujeira grossa. Faltava o sabão em pó.

Juntou, embaixo do braço, em uma daquelas sacolas tipo de feira, escova, sabão em barra, desinfetante. Pano de chão? Não era preciso. Deixaria o sol secar por conta. Mas da faxina precisava. Há muito.

Coçou um pouco a barba, olhou bem para sua túnica. Melhor seria trocar. E arregaçar as mangas da blusa trocada e as pernas da calça, também branca.

Para ir comprar o sabão em pó, chamou Maria. Inventaram tantos ultimamente. Precisaria de um bom de verdade, mas que não custasse muito – por favor! Tinha Classic, Progress, Aloe Vera, Multiação, Espuma Controlada, Espuma Descontrolada...

Optou pelo produto com Branqueadores Superativos.

Armaria a limpeza geral, junto com Maria, a Madalena, a qual se prontificou a ajudar. Não se limitaria a lavar os pés dos fiéis. Resolveu lavar tudo aqui embaixo: sacanagem, trapaça, maldade, seqüestros relâmpagos, falsos trotes, tráfico de drogas, infrações...

Mas, depois de pagar a conta no Supermercado Celeste, percebeu que o tipo de sabão em pó que teria que ter comprado era outro.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 01/02/08.
priscillaporto@gmail.com
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25/01/2008 10:47
VIDA ZERO


Originalmente, as pessoas não precisam de açúcar para viver. Tampouco de sal. Adotamos o uso dos mesmos para tornar mais fácil a digestão de algumas comidas. Conseqüentemente, mas talvez não conscientemente, tomamos para nós a responsabilidade de ter que conviver com seus malefícios.

No entanto, somos hedonistas demais para abdicar de prazeres visíveis e comestíveis em prol de uma saúde que parece ser invisível e acreditamos que só resolve se manifestar quando não anda bem das pernas, articulações e artérias.

Mas, deixando a culinária de lado, imagine-se vivendo uma vida zero, cheia de restrições. Na verdade, pode ser que assim já vivamos ao não podermos, quando crianças, andar descalços. Quando adolescentes, ter autonomia. Quando adultos, viver mais de um amor ao mesmo tempo. Quando mais velhos, vivermos como crianças ou adolescentes.

A vida é sim dádiva, presente dos deuses, pequeno ou grande milagre. Entretanto, será sempre podada por instituições: família, religião, escola, sociedade. Porém, se assim não fosse, daria certo? E, alguma vida – neste aglomerado de vidas que se cruzam ou mesmo nunca se cruzarão, apesar de viverem concomitantemente no mesmo minuto, tempo e espaço – dá realmente certo? Como ponderar se nem conhecemos nossa origem e destino?

Somos limitados. José da Silva Ltda. Maria Aparecida Ltda. E ninguém poderá saborear plenamente todos os seus dias como um refrigerante original. Margeará as versões diet e light da vida, desembocando na versão zero.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 25/01/08.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto



20/01/2008 14:57
NOSSA BOLHA

Gostaria de ser poeta maior. Não maior que outros, ou célebre, mas poeta de sensibilidade "pleonásmica" ao extremo. Isto porque, gostaria de conseguir tocar os sentimentos mais profundos de quem "me lesse", a ponto de, com apenas algumas palavras transformá-lo. Isto para que essa pessoa saísse da mesmice e da sua bolha "individualisticamente" fantástica.

Gostaria, inclusive, de sair também da minha bolha. E de ter saído do carro hoje e carregado o idoso que estava vendendo balas em um dos sinais de trânsito da capital mineira, com um cartaz ao peito, escrito "Ajude-me e você será abençoado por Deus." Carregá-lo para uma vida digna, na qual seus remédios, impostos e contas não o obrigassem a, depois de tantos anos de vida, ter que trabalhar assim.

Ou gostaria, igualmente de, em ato de heroísmo, ter acordado o homem que dormia no monumento da Praça da Rodoviária e ter sondado o que ele estava fazendo ali. E ajudá-lo a conseguir outro lugar para não só dormir, mas, igualmente, para comer e morar com um mínimo de dignidade.

Isto porque passamos direto.

Isto porque nossa vida já é cheia de problemas demais.

Isto porque a culpa não é nossa.

Isto porque temos que ser fortes.

E os fracos ou os que têm menos oportunidades caem. E quem é que tem tempo de olhar pra quem caiu?

A vida passa rápido demais e, ilusoriamente, seguimos o paradigma "humano" de termos que prosseguir. Termos que estudar, trabalhar, casar, ter filhos, ter casa, ter carro e ter um bom emprego. Vivemos inseridos na bolha fantasticamente individualista, como se realmente fôssemos os protagonistas únicos de uma vida, na qual os figurantes que se danem.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 18/01/08.
priscillaporto@gmail.com
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11/01/2008 10:17
A OUTRA DOR DO PARTO

Há apenas dois posicionamentos possíveis na condição de não ser animal irracional. Se você tem nome e sobrenome, tem certidão de nascimento, carteira de identidade e aguarda – não tão ansiosamente – pela sua certidão de óbito, conforme-se! Você só tem duas opções possíveis: ser feliz ou ser triste.

Na realidade, não há conformismo algum em qualquer uma das apenas duas alternativas. Para conseguir ser feliz é necessária muita luta. Já quando a escolha é ser triste, tudo piora, pois, pode-se "estar triste". Entretanto, queridos leitores, o nosso visível e plausível mundo jamais permitirá a alguns de seus racionais habitantes "ser triste".

Ou seja, não há escolha. A opção é única: nasceu, tem que ser feliz. Ainda que você não fume, mas os outros insistam em fumar perto de você. Ainda que você dirija tranquilamente em sua mão, mas os outros, em ultrapassagem errada, joguem seus carros em cima do seu. Ainda que você arrume a casa inteira sozinha, enquanto vinte outros a atrapalhem. Ainda que você trabalhe corretamente e em horário integral, enquanto os outros passem o expediente inteiro pensando em como não trabalhar e continuar recebendo.
Ainda que você jogue o papel na lixeira, rodeada de lixo jogado no chão pelos outros.

Isto porque, o individualismo é condição contemporaneamente inerente em nosso planeta. E a única ação que a humanidade realiza continuamente é mandar, no mesmo pacote que os CFC's, a responsabilidade, a alteridade e o interesse pelo outro pro espaço.

Talvez, por isso, quando uma pessoa nasce, ela chore.

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 11/01/08.
priscillaporto@gmail.com
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28/12/2007 11:15
31.536.000◦ SEGUNDO

No 31.536.000◦ segundo deste ano, o que você vai querer?

Imagine-se em uma feira livre, tão livre, que todos os seus, os meus e os nossos desejos estivessem à venda. Quanto você pagaria?

Vamos ver... pela roupa mais iluminada do mundo? A qual não te transformaria na mulher mais bonita da festa de Ano Novo, mas na melhor? Melhor que as outras, mais "boa"? Não. E, sim, na mulher mais generosa, a qual não invejaria jamais o cabelo ou o corpo das outras, ou desejaria ter um marido mais rico. Ou, ainda, não passaria seu último segundo de 2007, xingando os filhos.

Quanto você pagaria?

Vamos pensar... pelo carro mais possante do mundo? O qual não te transformaria no homem mais cobiçado da festa de Ano Novo, mas no mais atraente? O qual atrairia não olhares interesseiros, mas olhares interessados. E, atrairia, ainda, amores verdadeiros e não amores inventados, pois esse carro lhe mostraria o caminho correto, para conquistar de verdade, os sentimentos de uma única moça?

E, aí, cliente, quanto você pagaria para ter no 31.536.000 ◦ segundo do ano, escudo contra mal olhado; um litro completo e não gotas de paz de espírito; dias de semana – além-feriado- de amor intenso; e, além de tudo, uns 700 kilos e meio de pura felicidade?

Pagaria muito, mais que muito, um absurdo?

Bobagem! Sentimentos verdadeiros são oferecidos, na feira livre da vida, absolutamente de graça!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 28/12/07.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto



21/12/2007 11:19
DANE-SE CPMF!

A última vez em que fui a um hospital público, não senti o efeito da CPMF. Esperei por três horas no assento duro, ao lado de um homem que talvez só não tenha chorado por vergonha, mas que sentia dores fortes no ouvido e, ainda assim, esperou mais que o suportável para ser atendido. Também esperei tanto que quase me esqueci da dor aguda que sentia no estômago e, quando fui atendida, o que o médico me receitou? Neosaldina!

Senti, então, o efeito de ser brasileira, passiva e burra, por não fazer nada contra nosso governo e contra a maldita CPMF.

Mais de dez anos pagando imposto para saúde, pra quê? Para manter gastos excessivos públicos e continuar vendo ou estando em filas enormes de nossos deploráveis hospitais públicos?

Dane-se se o desconto era pouco e por muitas vezes imperceptível. São os pequenos sapos que nos fazem mais infelizes, isto porque é desse tipo de imposto que nunca surgirão protestos ou inconfidências, apesar de gerar para os cofres públicos cerca de 40 bilhões de reais! No máximo, gerarão reclamações para si mesmo ou para a coitada da pessoa mais próxima.

No entanto, sorriam brasileiros! No dia 13 de dezembro, o Senado decidiu extinguir, a partir de 1◦ janeiro de 2008, a maldita CPMF!

Decisão de cima pra baixo, favorável à massa, seria milagre? Não sejamos iludidos! Siglinhas consumidoras dos bolsos alheios ainda estão por vir! Mas só o gostinho de ver o governo "perder" pelo menos uma batalha em sua guerra justamente contra os súditos que lhe deram o "trono", já é um ótimo presente de Natal!

Priscilla Porto
Publicada no jornal O LIBERAL, de Ouro Preto, em 21/12/07.
priscillaporto@gmail.com
enviada por priscillaporto






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